Terça-feira, 16 de Junho de 2009

Rascunho

disseram por aí
que eu não gosto de samba
- como não?

minha vida é um samba
canção

diferente deste samba
que eu não canto
não

tira desse teu samba
o violão
sem piano não tem
exaltação

como disse itamar assumpção

Quinta-feira, 28 de Maio de 2009

O gravador está gravando

enquanto ouço o meu pai
- "o lobo é o próprio
lobão do homem" -
lembro do louco
que todo mundo
ouviu um pouco

"o pai da Medicina"
"o pai da História"
"o pai da Psiquiatria"

meu filho,
mata seu pai
come sua mãe científica
e se integra na terapêutica
beleza?

O outro lado

Quero um dia fazer entrevistas de história oral com as pessoas que conheço e necessitam de amor. Saber de seus vícios, da ausência dos filhos, dos recalques, das frustrações, dos frutos do abate na busca diária por compensações. Descobrir de que canções gostam, quais filmes não viram, se preferem poesia ou prosa, Guimarães Rosa, Paulo Leminski, Rosacruz, catolicismo, a moça do canal a cabo dizendo: "se tudo der errado, o problema é teu". Entender por que migraram, Santo André, Rio de Janeiro, Guarulhos, São Paulo, Ceará, em que bairros de onde circulam, se lêem Portelli em inglês, português ou no original.
Quero um dia fazer entrevistas de história oral com as pessoas que me pedem amor. Meus objetos sujeitos, colaboradores, professores doutores. Admiráveis perpetradores.

Sexta-feira, 22 de Maio de 2009

Dropsódia

A ilusão de agora é dizer que perdi ilusões. Adiei. Da voz às idéias, percorro um caminho incompleto de onde o mal é ceifado em nome da construção de outras ruas e avenidas - não há saídas? - que me levem ao lugar onde nunca estive e de onde jamais saí. Not bad for a boy from the gutter like me. Meus desejos não têm fim...

Domingo, 3 de Maio de 2009

Vem com tudo

o mundo pensa que sou dócil
porque dôo os dias de trabalho
e os de ócio
para decantar misérias
em belezas

mal sabe o mundo
o que eu faço
à noite

Até mais ver

não me lembro dos detalhes
frios do café da manhã
pratos servidos na festa
no almoço e jantar

lembro do seu olhar
nos intervalos
dos teus braços
de molho nas águas
de Minas Gerais

do rosto do teu filho
do da tua mulher
eu lembrava

agora
nem do teu
eu lembro mais

lembro só da tatuagem
da sunga verde
e coisa e tal
diferentes do que tive
e do que terei
logo e mais

Adolescendo

Insistem com minha memória pessoas que não verei mais. Marcas, vestígios de viagens que não estão aqui nem já lá. A Paola e seu telefone inventado; o bartender de Balneário Camboriú; o moleque fumando em Belém; e o pai do Pedro Lucas (ou tio do Pedro Lucas) -- rastro imediato que acabei de beijar. Deixar.
Me pergunto de suas funções como lembranças. De como estas formas produzem, e quais, significados. De que utilidade elas têm além ocupar espaço tão caro.
São lembranças de viagens, de acasos premeditados. E nem que eu queira tanto, que cruze os campos, que espere na porta por horas, eles serão refeitos.
Lição para que não seja em vão a primeira chance. Pra que eu não dependa da segunda e pra que a casca imemorial se derreta e, vez em quanto, eu passe e cometa:
- Tem uma maçã na ladeira. Rola ou não rola?

Sábado, 18 de Abril de 2009

Sabote minha partida (ou "1986")

não existe never more
e no próximo bar
que você estiver
vou pedir uma bebida
uma cachaça, uma tequila
vou fingir que a velha amiga
me pediu para chegar

vou olhar pro teu boné
pro teu corpo, copo, colher
pro que estiver comendo
e vou ver se bem de perto
finalmente então entendo
por que cargas d'água
você deixou meu sábado
com cara de never more

ainda bem
que eu sei
não existe
never more

que someday
também sei
you and me
and more
and more...